Ver o verso - em mãos

Ver o verso - em mãos

(antologia - poesia)

O Verso edições_Brasil

2000

alguns poemas

Os poetas Mano Melo, Alexandra Maia, Pedro Bial e Claufe Rodrigues apresentaram de 1999 a 2001 a série de recitais Ver o Verso. O evento, que começou no Planetário da Gávea, no Rio de Janeiro, ultrapassou fronteiras, e se estendeu por outras cidades do país.
O grupo se apresentou em São Paulo, Porto Alegre, Salvador, Fortaleza, Belém do Pará, e diversas outras cidades brasileiras. Além de seus próprios textos, os poetas recitavam
poemas de grandes nomes da literatura, levando à platéia o melhor da produção poética brasileira e universal.
A cada apresentação, o grupo convidava um poeta, e um ator que tenha ligação
com este gênero literário. Vários nomes participaram do evento: Ferreira Gullar, Ivo Barroso, Eva Wilma, Maria Fernanda Cândido, Carlos Nejar, Geraldo Carneiro, Cássia Kiss, Affonso Romano de Sant'Anna, Laura Cardoso, Antonio Calloni, Letícia Spiller, entre outros.
Outra característica do Ver o Verso era fazer recitais gratuitos em escolas e bibliotecas públicas, um trabalho fundamental na formação de novos leitores.

DIÁRIO

 

 

Festa de casamento,

lugar para se ter cuidado. 

 

         Na cadeira em frente ao altar,

meu coração mecânico

maltratado pela cena romântica.

 

“Tudo são rosas”. 

 

Para mim, sempre foi floresta.

Dentro, selvageria.

                                Flores? 

De vez em quando ganho buquês.

 

Todo dia,

cruzo é  com planta rasteira,

maria-sem-vergonha, bananeira.

               Isso quando muito.

 

Geralmente é deserto 

que atravesso toda manhã

no caminho da cama até o banheiro.

 

Minha ilha ainda úmida, 

fria do orvalho interior.

AH

 

 

Delicada violência

do gozo:

nem vida

nem morte,

               suspensão.

 

Nesse hiato silencioso,

teto preto,

tocamos o inefável.

               Encostamos nos pés de Deus

para depois cairmos na cama,

exaustos

de tanta amplidão.

 

Olho para o lado,

corpo ainda trêmulo,

e observo meu coração deitado nu.

                      

 

BACON

 

 

Chega a dar tonturas,

tamanho o abismo.

 

O natural é isso:

         distorção e borrão 

         na realidade plácida.

 

Sentado, pernas cruzadas,

sempre enquadrado, 

em decomposição contínua.

 

O homem em frente à TV,

o jornal no chão.

Sem a loucura que o salvaria

de empalhar a si mesmo.

               É então continuar o jantar

e limpar da boca o que escorreu.

 

Ser 

urubu da própria vida,

comendo de si mesmo o umbigo,

cuspindo o que é osso para o cão.

 

Saída nenhuma.

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